Falam muito mal dos
avestruzes, injustamente. Seus detratores, movidos por motivos inconfessáveis,
declaram que aquelas aves são de estupidez sem paralelo. Dizem que elas, ao se
defrontar com um leão, enterram suas cabeças na areia. Se assim eles se comportam
é porque devem ser adeptosde uma antiga filosofia que afirmava que “ser é
perceber”. Raciocinam os avestruzes: se não percebo o perigo, o perigo não
existe para mim. (Traduzindo popularmente: “Aquilo que os olhos não vêem, o
coração não sente”.). Continua o pensamento dos avestruzes: “Posso, assim, me
comportar como se ele não existisse, desde que continue com a cabeça enterrada
na areia”. Tudo estaria bem se o leão não fosse de verdade. E o resultado é que
o avestruz acaba na barriga do leão... Mas, como disse antes, eu não acredito que
os avestruzes sejam assim tão estúpidos. Estupidez igual somente encontrei em
exemplares da espécie Homo sapiens a que pertencemos. O que provocou
essa meditação foi uma conversa que tive com o dr. Augusto Rocha, que me falou
sobre o curioso comportamento de pessoas que têm hipertensão arterial e se
recusam a tomar remédio. Hipertensão é doença crônica. Sem cura. Para o resto
da vida. Como o diabetes. Embora não possam ser curadas, as doenças crônicas
podem ser controladas. Para isso, o doente há de aceitar uma rotina diária de
tomar os remédios devidos. Se isso é doença crônica, podemos dizer que todos
nós somos portadores de uma enfermidade crônica que, se não for tratada
rotineira e diariamente, pode levar à morte em um mês. É a fome. E o remédio diário
para ela é um bom prato de comida... O fato é que ninguém se esquece de comer.
Mas alguns doentes crônicos se esquecem de tomar seus medicamentos. Na verdade,
não creio que seja esquecimento. Segundo Freud, todos os esquecimentos são
intencionais. Os portadores de doenças crônicas se “esquecem” de tomar seus medicamentos
porque eles são adeptos da filosofia dos avestruzes. Acham que, não percebendo,
a coisa não existe. Acham que ninguém pensa assim? Tive um amigo, um homem
inteligente de extraordinárias habilidades mecânicas que não ia ao médico de
forma alguma. Alegava: “Não vou ao médico porque pode ser que eu tenha alguma
coisa...”. Não ia ao médico para não saber. Não sabendo, ele acreditava que a doença
não existia. O leão existe mesmo quando fechamos os olhos...
Rubem
Alves
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